• Juliana Zellauy

Como Mindfulness pode contribuir para a Sustentabilidade?



Precisamos falar sobre Compaixão.

E é engraçado, porque quando falamos de Compaixão surgem dois sentimentos dentro da gente: um de que trata-se de uma relação de desigualdade – tenho algo para oferecer a outra pessoa que não tem – o outro, que Compaixão é uma fraqueza, que você será considerado uma pessoa boba e vão se aproveitar de você por isso.


Trabalho com sustentabilidade há 18 anos e ao longo destes anos finalmente percebi que para termos resultados melhores em Sustentabilidade precisamos atuar na causa raiz dos nossos males: nossa mente.


Hoje estamos mergulhados em uma sociedade estressada, extremamente competitiva, focada no ego, ansiosa, nervosa, com depressão, estafa (burnout) e infelicidade geral. Isso impacta não só a própria pessoa e sua família, como também o relacionamento com todos ao seu redor gerando reflexos negativos na sua atitude perante o mundo. Mas como reverter isso? Como tratar a ansiedade, a competitividade, a raiva, o egoísmo?

Pratico meditação há 15 anos. Comecei a meditar no mesmo período que iniciei a faculdade de Gestão Ambiental e logo percebi o que a meditação faz por nós, como indivíduos e como sociedade: a mudança mental e emocional que ela proporciona. E é isso sobre isso que gostaria de falar com você hoje.


Para quem não está familiarizado, Mindfulness é uma palavra em inglês que pode ser traduzida como “consciência plena” ou “atenção plena”. De acordo com o psiquiatra Javier Garcia Campayo e o professor PhD Marcelo Demarzo: “Mindfulness é uma terapia secular sem qualquer reminiscência religiosa ou cultural, com uma sólida base científica”. Este autores também afirmam que mindfulness não significa necessariamente uma prática meditativa mas é um estado da mente humana “descrita por diversas tradições religiosas e presente em todos os indivíduos em maior ou menor intensidade”.


É uma ação intencional, uma capacidade de estar atento no presente com aceitação, flexibilidade e abertura à própria experiência. Pode ser praticado de maneira formal, por meio da meditação, ou informal, ou seja, com plena consciência ao executar as atividades do dia-a-dia, seja lavar a louça, tomar banho, caminhar, dirigir ou o que quer que seja, estando totalmente atento e aberto para o momento presente.


E o que Mindfulness tem a ver com Sustentabilidade? Bem, o fato é que diversos estudos comprovam que a sua prática nos ajuda a entender por que fazemos o que fazemos e a turbinar a nossa capacidade de ter empatia com outros seres (humanos ou não). Assim, naturalmente com o passar do tempo as pessoas que praticam meditação acabam por desenvolver um compromisso social mais profundo, devido também ao abrandamento da centralidade no ego.


Outra consequência é o que os cientistas chamam de desenvolvimento do “interser”, aquele sentimento de conexão com o todo e de pertencimento, que nos faz sentir parte da humanidade e do cosmos. Ele age como um antídoto para a crença errônea de que estamos separados do mundo, que também é em grande parte responsável pela origem desta sensação de sermos incompletos, de estarmos sozinhos, de falta de propósito. Assim, ao nos sentir parte do todo, nos sentimos responsáveis por um mundo melhor para todos.


A prática de Mindfulness – especialmente do Mindfulness para trabalhar a Compaixão – contribui para ambientes organizacionais menos tumultuados, competitivos e frios. Mais do que isso, facilita uma convivência mais harmônica, cooperativa e pacífica.


E o que é a Compaixão? É aquele sentimento quando você presencia o sofrimento do outro que aciona o seu ímpeto e ajudar.


No entanto, no nosso mundo atual, tão competitivo, muitas vezes a compaixão é tida como uma fraqueza ou, no máximo, uma relação de desigualdade, em que você apenas dá e o outro recebe. Mas, ao contrário, estudos comprovam que quem oferece compaixão não apenas lida melhor com emoções como a culpa, a raiva e a inveja, como desenvolve um contentamento e bem-estar psicológico duradouro.


Ela é a base do nosso sistema neurobiológico de satisfação, calma e segurança que é ativado quando temos um relacionamento de afeto e confiança, relações colaborativas e significativas. Este sistema é um contraponto para os nossos dois outros sistemas neurobiológicos: o de ameaça e proteção (que nos permite detectar as ameaças no mundo externo e produz emoções como a ansiedade, a raiva, o medo ou a aversão) e o sistema de conquista (que nos estimula a buscar o necessário para a vida, como abrigo e alimentos, mas também, quando em desequilíbrio, dinheiro, objetos e status).


Atualmente nossa sociedade tem demonstrado uma forte ativação dos sistemas de ameaça (que percebe o ambiente externo como ameaçador) e o de conquista (responsável pelo consumismo e a busca por status social), enquanto o sistema de calma e segurança são pouco ativados. Neste sentido, a compaixão serve como um antídoto ativando este último sistema, o único capaz de se contrapor aos outros dois e que nos possibilita desenvolver a verdadeira felicidade, que é algo que é possível e só se encontra dentro e não fora de nós.


Então, como Mindfulness pode contribuir para a Sustentabilidade? Além de nos ajudar a desapegar do intenso desejo de posse a acumulação, ele nos faz sermos mais gentis com nós mesmos e com os outros, reforça os laços afetivos e combate a descartabilidade que temos em relação aos objetos, mas também em relação às pessoas, situações e seres vivos – não tem valor para mim, então eu jogo fora. Passamos então a dotá-los de valor intrínseco e não monetário ou para atendimento do nosso ego apenas. Em última instância, fortalece os nossos sentimentos de conexão e de pertencimento com o todo, restaurando nossa paz e o sentimento do que é sagrado.


Mas falar sobre sagrado daí já é outro tabu, que fica para um próximo artigo.


Até lá!


Juliana Zellauy Feres


Referências:

Campayo, Javier Garcia e Demarzo, Marcelo. Manual prático Mindfulness – Curiosidade e Aceitação. São Paulo: Palas Athena, 2015.

Boff, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.


Artigo publicado originalmente em Carta Capital: http://envolverde.cartacapital.com.br/como-mindfulness-pode-contribuir-para-a-sustentabilidade/

 

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